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Estranhas Fimiliaridades

Exposições

Se há um elemento capaz de reunir as pinturas de Julia Dalcastagné, ele está no olhar. Os personagens encaram o espectador de maneira direta, transformando os olhos no principal campo de tensão da imagem. A artista define esse olhar como venenoso, uma presença que seduz e produz desconforto ao mesmo tempo. É essa ambiguidade que aproxima o público das figuras e impede uma leitura imediata de suas intenções.

 

A exposição nasce dessa experiência. Há algo reconhecível em cada personagem, mas também algo que permanece fora de alcance. As figuras carregam fragmentos de contos de fadas, mitologias, histórias em quadrinhos, filmes e narrativas fantásticas, reorganizados em uma linguagem própria. A identificação acontece rapidamente, mas nenhuma imagem se fecha numa interpretação definitiva.

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Cada obra apresenta personagens e símbolos que estabelecem relações abertas, conduzindo o observador por um percurso construído pela associação e não pela explicação. O mistério não surge da ausência de referências, mas da maneira como elas são reorganizadas. Quanto mais familiares essas imagens parecem, mais escapam a uma leitura única.

 

Julia Dalcastagné constrói uma pintura que transforma o repertório visual da cultura contemporânea em um campo de incerteza. As figuras encaram o espectador antes de serem encaradas, deslocando continuamente a posição de quem vê. É nesse jogo entre reconhecimento e estranhamento que a exposição encontra sua unidade, convidando o público a percorrer imagens que permanecem abertas mesmo quando parecem inteiramente familiares.

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Realização: UP Time Art Gallery

Curadoria: Marisa Melo

Poison Eye: Fragmentos
de Um Universo Pessoal

A mostra Poison Eye parte de um repertório visual que marcou a infância de Júlia Dalcastagné: cartoons, animes super-heróis, gibis e desenhos animados. Não se trata de apropriação ou aceno nostálgico, mas da incorporação crítica de um vocabulário imagético que, ao ser reconfigurado pela artista, revela uma atração consciente pela justaposição entre o sombrio e o colorido, o caricatural e o psíquico, o lúdico e o inquietante. É a partir desse léxico, comum a uma geração e revisto sob outro grau de consciência, que Júlia estrutura suas imagens.​

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Poison Eye não pretende suavizar, nem organizar o campo interpretativo para o espectador. A mostra apresenta um conjunto de obras que tensiona diretamente o pacto de inocência visual. O que se propõe não é descrever a artista nem limitar sua linguagem em categorias. É sustentar o trabalho como campo autônomo, onde a imagem pensa, colide e impõe.

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O nome da exposição nomeia uma entidade fictícia criada por Júlia: um olho que intoxica. Um olhar que, em vez de registrar, compromete. O Poison Eye enxerga para além do decoroso e devolve imagens atravessadas por lucidez. Não há ingenuidade em suas figuras. Há rigor formal e deslocamento contínuo, não apenas de temas, mas de expectativas. A composição é clara, mas o que se revela nunca é inocente. Apesar do olhar venenoso, os personagens são lúdicos e impactam pela construção visualmente bem resolvida.   

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Se há infância, ela é ambígua. Se há ternura, ela é desconfiada. As obras desconstroem o pensamento. Cada fragmento se estrutura como uma fresta, onde o gesto pictórico opera entre denúncia e invenção. Não há discurso panfletário. Há escolha de linguagem. E é exatamente por isso que o desconforto que emana da pintura não é um subproduto, mas parte da arquitetura do trabalho.

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A mostra não busca oferecer mediação interpretativa. O que propõe é a suspensão do automatismo perceptivo. Propõe um confronto com a imagem enquanto campo ético e estético. A curadoria não interpreta, não traduz, não organiza sentidos. Ela sustenta o espaço e remove os excessos, para que a linguagem da artista atue com a força que tem. 

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Marisa Melo

Curadora

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